\"A catástrofe seria a presença simultânea de todas as coisas\"

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Curto
David Dinis

David Dinis

Director-adjunto

"A catástrofe seria a presença simultânea de todas as coisas"

26 Março 2020
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“738 mortos em Espanha.
Em Itália, 683.
Portugal, Espanha, frança, Itália, Estados Unidos, Brasil, Irão, Coreia do Sul, Holanda, Bélgica.
A temperatura de um país é medida pelo número de mortos.
Uma temperatura negra, grotesca.
Filha da puta de temperatura.
Ouvir um número como se ouve uma resposta.
Mas ninguém fez nenhuma pergunta.”


Desculpe começar este Curto assim, negro, a chamá-lo para o dia. Mas é assim que Gonçalo M. Tavares dita o dia de ontem, no terceiro Diário da Peste que tem aqui no Expresso, estes dias de emergência.

Infelizmente, ela é mesmo negra, grotesca. Ontem, já depois do Gonçalo nos ter mandado o texto, aconteceu isto em La Línea de la Concepción, Espanha:

“Um grupo de 28 idosos, que tinham sido despejados de um lar por estarem infetados com o coronavírus covid-19, foi recebido à pedrada por um grupo de pessoas que tentavam impedir a entrada na cidade das ambulâncias que os transportavam.
A receção violenta não se limitou à entrada na cidade: uma vez chegados à residência onde o governo autonómico da Andaluzia os realojou, os idosos foram cercados por cerca de meia centena de pessoas que ameaçaram tomar medidas se mais infetados chegassem à cidade (…). Durante a noite, foram arremessados vários engenhos explosivos a partir de casas nas imediações da residência. O primeiro deles explodiu na via pública no momento em que vários agentes identificavam dois indivíduos. O segundo foi lançado meia hora mais tarde para o mesmo local.”


Em Espanha, a crise sanitária iguala já, na curva que mede a temperatura negra, grotesca destes dias, aquela que se sente em Itália. E a essa crise sanitária, como à crise económica, começa a juntar-se uma crise moral.

Espanha é mesmo ao lado de Portugal, onde lutamos com todas as armas contra a temperatura que sobe - nos hospitais, na economia. Fique alerta. Reentre no Diário da Peste, a que ele chamou "Por vezes no mundo terrível", olhe para dentro de si e leia este trecho:

"Há barcos que estão atracados à espera de autorização para despejar a carga humana.
A natureza deve estar a olhar estupefacta para os humanos.
Por que se estão a retirar?”

Porquê, se uma vida é uma vida - sempre mais e nunca menos do que isso?

Por isso lhe trouxe esta história negra, grotesca, que aconteceu em La Línea de la Concepción. A nós, jornalistas, este dilema dilacera-nos a alma: as histórias que tanto preferíamos não contar são, infelizmente, as que mais nos podem ajudar a evitar, em comunidade, a pior catástrofe de todas.

Lembre-se disto, agora que estamos a entrar na fase mais crítica: vamos seguramente perder muitas coisas até que a peste se vá. Nunca podemos perder a alma.

"A catástrofe seria a presença simultânea de todas as coisas", lembra o Gonçalo M. Tavares, citando Sloterdijk numa entrevista antiga. Não será uma catástrofe. Não deixaremos.

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AS NOTÍCIAS QUE MARCAM

O que está em cima da mesa do Governo
: Moratórias no crédito à habitação e regras para financiar empresas.

Famílias, ponto de situação: 40% dos portugueses vão ter de reduzir despesas (se as restrições durarem só mais um mês).

Trabalhadores, ponto de situação: as medidas de apoio às empresas não proíbem todos os despedimentos. Pior ainda, lembra o Negócios, quando o novo período experimental (agora de seis meses) deixa mais empregados em risco.

Banca, ponto de situação: “Vamos ter o vírus económico daqui a três ou quatro meses”, avisam os banqueiros.

Economia, ponto de situação: os números que mostram como o país parou em 10 dias.

SNS, pedido de ajuda: “Ajude-nos a proteger todos aqueles profissionais que cuidam de nós”. O pedido das ordens dos médicos, enfermeiros e farmacêuticos ao primeiro-ministro seguiu por carta.

Saúde pública, problema extra: a pandemia deixa milhares de crianças por vacinar, lembra o JN. Não deve.

Apoio social, pedido de ajuda. "40% do pessoal dos lares das Misericórdias foi para casa tratar das crianças”, alertou Marcelo. A juntar ao dos lares, onde o número de mortes sobe e os pedidos de meios abundam, aos idosos isolados, aos tantos pedidos de ajuda e alerta que se juntam pelo país. Não é possível esquecer nenhum. Mesmo o da Cultura, cujo setor assina hoje um manifesto sonoro.

Quarentena, pedidos de ajuda. Os mais novos ficaram sem apoio psicológico (e podem precisar). O Governo acionou um plano de saúde mental para todos, diz o Público.

Portugal, ponto de situação: a “fase mais crítica” chegou. Se preferir uma visão gráfica, recomendo dois links: estamos agora mais 27% de casos suspeitos, a seguir a linha de França.

Mundo, ponto de situação: com Bolsonaro e Trump em negação, há dois alertas para levar muito a sério, o grave caso espanhol e um enorme apelo de Macron.

Europa, a resposta de hoje: em desacordo sobre a resposta de hoje, os líderes discutem o relançamento de amanhã.

À Europa, fica o aviso: Mario Draghi diz que “o custo da hesitação pode ser irreversível”.

Outro, de quem viveu a outra crise: esta é a segunda oportunidade, pode ser a última - diz José Sócrates.

Ao mundo, fica mais um alerta: se não ajudarmos agora os países pobres, o vírus vai tornar a dar a volta ao mundo, diz António Guterres.

Uma esperança (que é aquilo que não nos acaba): um grande ensaio clínico vai testar quatro tratamentos em sete países europeus. E, por cá, os cientistas e laboratórios juntam-se para duplicar os testes (conta o Público).

E um sorriso (que também é um exemplo): como as grandes marcas estão a promover o distanciamento.

FRASES

“Tenho dias em que estou confiante, outros que estou borrado de medo”. Cândido Costa chegou a casa em Ovar na sexta-feira 13 e não mais saiu. Na Tribuna.

"Se há momento em que um Governo de salvação nacional é necessário, é este”. José Miguel Júdice, histórico opositor do Bloco Central, na SIC-Notícias.

“Não nos iludamos sobre a “democraticidade” da epidemia ou das medidas adotadas para a sua contenção: as suas consequências são brutalmente desiguais”. Pedro Magalhães, no Expresso.

“O que se passa nas ilhas gregas [com os refugiados] é uma tragédia incomparável com quase tudo o que se tem vivido na Europa no que diz respeito a questões humanitárias”. Paulo Rangel, eurodeputado do PSD.

"Esta reclusão não é um inferno nem uma tragédia. Inferno é viver como Anne Frank viveu. Tragédia é morrer como ela morreu". Duarte Gomes, levando-nos onde devemos estar, também na Tribuna.

O QUE PODIA ESTAR A LER

Houvesse tempo nestes dias, estaria a ler sobre o BuzzFeed e o VICE, duas startups comandadas pela tecnologia viral que romperam com os padrões de sempre do jornalismo, mas também sobre o The New York Times e o Washington Post, dois dos jornais das nossas vidas, que tiveram de se confrontar com a pior das opções, aquela que os colocou entre as preservação dos seus princípios de sempre - objetividade e imparcialidade - e a sobrevivência na era da disfunção digital.

Houvesse tempo nestes dias e estaria a ler sobre eles, jornalistas de confiança, editores experientes, alguns de egos inflamados, outros provocadores; alguns deles lançando-se na era digital, outros afundando-se nesta era de transformações profundas na indústria dos média - uma era de crise económica, de crise tecnológica, uma era de oportunidades infinitas para chegar a mais leitores do que alguma vez acreditámos ser possível.

Houvesse tempo nestes dias e estaria a ler sobre como os que sobreviveram a todas estas transformações no jornalismo, tantas vezes cometendo erros pelo caminho, se confrontaram com o preço destas mudanças: escândalos sexuais, notícias falsas, a eleição de líderes perigosos, sucessivos abanões na Democracia - aquele regime por quem tanto lutamos. Houvesse tempo, sim, pegaria em “Merchants of Truth”, do antigo diretor do New York Times, Jill Abramson, que está na estante da nossa sala há semanas, pedindo-lhe que eu lhe pegue, finalmente.

Não há tempo nestes dias - para mim, para tantos dos meus colegas, dos amigos com quem trabalho, com quem partilho esta profissão. Apesar da quarentena, apesar do distanciamento social, muitos de nós (que temos filhos, que temos companheira/o, que temos amigos, que temos pais, avós, que temos cão ou gato), usamos o tempo para ler tudo, para filtrar a informação, para a discutir em conjunto, para lhe escrever o que sabemos.

Não há tempo nestes dias, porque vivemos tempos extraordinários, tempos que não mais esqueceremos, porque todo o tempo que temos é tempo para lhe fazer chegar informação, para o ajudar nesta quarentena, para lhe mostrar como o distanciamento é fundamental, para lhe explicar que esta doença mata, que é mesmo perigosa, para o ajudar a sobreviver nos dias que aí vêm. Sobreviver num tempo em que talvez tenha tempo, mas que não era assim que gostava de o passar. Sobreviver num tempo em que lutar pela sobrevivência, a sua, a dos seus, a de todos, implica trabalhar à distância, enquanto cozinha, enquanto trata dos seus, enquanto ama, tudo sempre no mesmo espaço - que felizmente é o seu.

Do lado de cá, há jornalistas que lutam a cada minuto, a cada hora, a cada dia, sem dar descanso ao tempo. Jornalistas que sofrem com as notícias que escrevem, que sofrem com os riscos que correm - porque também esses riscos são escolhas nestes dias que tantos dizem de guerra.

É nestes tempos sem tempo que vejo como, desse lado, os leitores deixaram de lado as redes sociais e confiaram no nosso trabalho, procurando ajuda, procurando informação, procurando a verdade.

Agradecemos-lhe isso. As visitas ao nosso sítio na internet, a deslocação à porta da papelaria onde reforçámos a venda do jornal em papel, a prova de confiança que é comprar uma assinatura digital do Expresso.

Nestes dias sem tempo, porque sentimos o peso do dever acima de todos os outros, tinha de ter tempo pelo menos para lhe agradecer essa confiança. Nós sabemos que, na hora da verdade, é na verdade que confia. E, acredite, somos gratos por isso. Do fundo do coração.

Bem-haja. Até amanhã.

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